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Carnaval 2026: trios elétricos e a nova geração do axé

Ilustração abstrata em coral e verde-água com formas de percussão

Na quarta-feira de cinzas, o som ainda vibra nos ouvidos de quem passou seis dias no circuito. Mas em Salvador o carnaval não termina quando a folia oficial acaba — ele migra para ensaios de verão, blocos de rua e conversas de bastidor sobre quem ficou, quem estreou e quem reinventou o axé em 2026. Passei duas semanas entre o Campo Grande e o circuito Barra–Ondina para entender como a nova geração ocupa espaço ao lado dos nomes que fundaram o gênero.

O primeiro achado é numérico e simbólico: desta vez, sete trios elétricos incluíram artistas com menos de cinco anos de carreira no repertório principal — não só como convidados de uma música, mas como atrações anunciadas em cartaz. Isso não acontecia com essa frequência há uma década, quando o axé era tratado quase como arquivo histórico fora de fevereiro.

Campo Grande: ensaio aberto, público exigente

No Campo Grande, o público conhece letra por letra. Errar a entrada de um refrão clássico custa vaias; acertar uma música inédita garante aplauso imediato. Acompanhei três ensaios do trio de Tainá Ferreira, cantora de 26 anos nascida em Periperi, que estreou no circuito principal em 2026.

"Aprendi axé ouvindo minha avó e aprendi produção no YouTube", disse Tainá, entre passagens de som e ajuste de retorno. "Não estou substituindo ninguém. Estou ocupando um lugar que a cidade pediu: axé que fala de hoje com respeito ao ontem."

O repertório dela mistura referências de Ilê Aiyê e blocos afro com batidas que lembram funk melody — uma combinação que divide opiniões entre puristas e jovens do público. O que ninguém discute é a energia: em cada ensaio, a fila do abadá esgotou antes do meio-dia.

Barra–Ondina: logística, mar e refrão coletivo

No circuito Barra–Ondina, a escala muda tudo. Caminhões maiores, estruturas de som mais potentes, transmissão ao vivo e patrocínio que exige coreografia de marca. Mesmo assim, produtores locais relatam pressão por diversidade no line-up — não como modismo, mas como resposta a um público que quer ver a cidade refletida no palco.

Axé não é museu. É rua, é mar, é corpo dançando — e corpo novo também dança.

Conversei com Rui Matos, produtor com 18 carnavais no currículo. "Antes a pergunta era: quem vende ingresso? Agora é: quem representa Salvador?", resumiu. Segundo ele, artistas emergentes chegam com base de fãs construída no Instagram e no TikTok, o que altera a negociação com patrocinadores que antes só olhavam para índices de rádio.

Um exemplo concreto: o bloco-afro Jardim do Axé, que em 2026 levou ao trio principal uma roda de compositoras de Cajazeiras. O bloco não nasceu ontem, mas ganhou visibilidade nacional após um vídeo de ensaio viralizar em janeiro — prova de que algoritmo e tradição não são inimigos automáticos.

O som que fica depois do carnaval

Além dos trios, o carnaval 2026 destacou micro-festivais em bairros periféricos: Lauro de Freitas, Simões Filho e Camaçari montaram programações paralelas com artistas locais e transmissão comunitária. O movimento responde a uma queixa antiga — a concentração de recursos no centro expandido — e cria palco para quem ainda não tem caminhão, mas tem repertório.

Para historiadores da música baiana, o momento lembra os anos 1990, quando o axé explodiu comercialmente e abriu portas — e também controvérsias sobre apropriação e direito autoral. A diferença hoje, apontam pesquisadores ouvidos para esta reportagem, é o acesso à produção: laptop, interface e microfone condensador substituíram parte do estúdio caro.

O desafio permanece: garantir que a nova geração receba royalties, crédito e espaço físico, não só convite simbólico para cantar um verso em feat. de artista consagrado. Sindicatos e associações de compositores da Bahia discutem modelos de repasse mais transparentes para shows gravados e transmitidos.

O que vem no verão

Com o carnaval no retrovisor, Salvador entra na temporada de verão com agenda cheia: festivais em praia, rodas de samba no Rio Vermelho e turnês que levam nomes baianos ao Sudeste. Tainá Ferreira confirma show em São Paulo em julho; o bloco Jardim do Axé prepara gravação ao vivo.

Se você participou de um trio ou bloco este ano e quer compartilhar relato — especialmente de artistas ainda fora do radar principal —, escreva para nós pelo contato. Queremos ampliar este retrato com vozes de outras regiões metropolitanas da Bahia.